Ana Beatriz Demarchi Barel – Paris III / Sorbonne Nouvelle
1. Ferdinand Denis, o outro no fundo do espelho
O trabalho de Ferdinand Denis[2] sobre o Brasil insere-se num contexto histórico mais amplo e seus textos podem ser lidos como pertencendo à tradição muito francesa dos relatos de viagens. Neste sentido, vale a pena nos determos para analisar mais de perto no que consiste este tipo de documento literário mas também histórico[3].
Se por um lado os escritos de Denis podem ser lidos como uma conseqüência quase natural para um francês letrado e ilustrado que no século XIX embarcava para os trópicos – ou, seja, o relato do deslumbramento de um europeu diante da exuberância natural de nossas terras, o que não oferece grande novidade dentro da perspectiva científica, uma vez que muitos outros manuais sobre a flora e a fauna nos trópicos já eram mais ou menos conhecidos do público europeu – eles podem também apontar uma outra direção e que será explorada nos anos a seguir, e que consiste no aproveitamento de um material ainda inédito, no caso principalmente da História literária do Brasil, este sim, ainda pouco divulgado entre os intelectuais, principalmente, devido ao controle português sobre nossa produção cultural.
Denis atentará para o fato e diante da eminência do movimento de Independência no Brasil, que aliás ele vivenciou nos anos em que aqui viveu, evidentemente, ainda que praticamente nenhum comentário relativo à política da época esteja presente em seu diário ou em suas cartas à família, será o pioneiro neste terreno, publicando um resumo de nosso percurso literário.
Este olhar atento à necessidade de oferecer ao público francês uma breve história literária de uma jovem nação como o Brasil, foi, de certo, influenciado pelo momento histórico em que vivia Denis e à evolução mesma das ciências humanas e da história e da historiografia, em particular. Mas, além deste aspecto, e da sensibilidade pessoal de Denis para tudo o que dissesse respeito ao Brasil, há, a nosso ver, um projeto maior que se define nestas primeiras décadas do século XIX e que consiste na construção de um Brasil oficial.
Era preciso forjar neste momento uma identidade a esta jovem nação em processo de construção. Todos os elementos necessários ao reconhecimento pelas demais nações do cenário internacional onde quer se inserir o Brasil e como pertencentes a ele ou a ele identificáveis devem ser a partir de então elaborados. Um programa de propaganda oficial é posto em marcha e então são criados os emblemas nacionais, um hino nacional, a bandeira. Era necessário projetar uma imagem moderna de nação autônoma, promissora, atualizada intelectualmente.
No século XIX, o grande centro propulsor de idéias é Paris e para lá se dirige o grupo de jovens intelectuais brasileiros que mais tarde será chamado o grupo de Paris. Aí, eles encontrarão a acolhida de, entre outros franceses, Ferdinand Denis, que se encarregará de colocá-los em contato com pessoas importantes para o prosseguimento deste projeto de construção de nossa identidade nacional. Será através dele que a Niterói será publicada, aliás, na mesma casa de edição da Passagem des Panoramas, em Paris, onde anos antes publicara uma de suas obras.
Dizendo de outro modo, Denis será o nosso veículo, o nosso intermediário no cenário intelectual em Paris, o que tinha um imenso valor político para nossas letras mal conhecidas. Também será através dele que entraremos em contato com o Instituto Histórico e Geográfico de Paris, onde nossos jovens farão algumas conferências. Ferdinand Denis foi, desta forma, mais do que um aventureiro em busca de seu Eldorado pessoal como poderiam nos fazer pensar suas cartas e seu diário. E também foi mais que um simples elo de ligação entre a França e o Brasil. Denis foi, pelo momento histórico em que viveu e pela sua argúcia, um dos mentores de um projeto civilizatório, de certo, mas que, ainda que sinalize nossa fragilidade literária e cultural e a busca de modelos fora de nós mesmos, implicando um olhar ainda voltado para o outro, o reconhecimento possível de nossa literatura.
Esta observação, incômoda pela possível carga de determinismo que possa aparentemente conter, deve no entanto, ser lida menos como a constatação de uma fatalidade do que como o aproveitamento positivo do modelo cultural francês numa fase de transição em que necessitávamos de um elo outro que Portugal para nossa projeção internacional. Se assim não fosse, ainda hoje nosso modelo seria a intelectualidade francesa o que de longe não corresponde à realidade. Mas, não se pode deixar de pensar que muito da imagem elaborada e difundida a partir deste projeto de construção de nossa identidade nacional, o que também implica a literária, se prolonga até o presente, criando e recriando no imaginário europeu, e em especial, no francês, idealizações forjadas naquele contexto histórico. E isso não necessariamente é totalmente positivo e nem totalmente adequado ao atual momento histórico, político e literário que vive o Brasil. Quero dizer com isso que a imagem veiculada naquele momento preciso fará frutificar ainda hoje deformações da realidade mas cuja responsabilidade não é de forma alguma inteiramente sua mas também é falso que não tenha concorrido para isso.
Portanto, se naquele momento era fundamental e até incontornável, na falta de algo mais consistente e autônomo, nossa subordinação a um projeto que nos inventasse por reflexo, emitindo uma imagem por um lado idealizada e por outro deformadora, dependendo do aspecto em questão, também possamos dizer que, talvez pelo mesmo motivo, algo tenha escapado de nosso próprio controle, e hoje já não nos reconheçamos no olhar do outro, o que é revelador da força deste mesmo projeto no imaginário social internacional. A imagem de um Brasil como espaço mítico, como o topos do paraíso perdido, da sociedade ainda a ser construída e de um povo ainda na infância vem completar um espaço, preencher um papel complementar e por isso funciona tão bem, pois se presta a recriar a possibilidade de um mundo ainda não corrompido o que se traduz como o espaço do sonho e da descompressão de um mundo desencantado, representado pela civilização.
Lido neste sentido, o projeto de Ferdinand Denis revela-se conservador aos nossos olhos de século XX pois não propõe nenhuma mudança de papéis. A senha para ingressar no cenário das nações modernas era a tematização de nosso exotismo, a exaltação de nossas riquezas naturais, a heroicização de nosso autóctone, enfim, dizer o que se esperava que se dissesse. A grande inovação era dizer o esperado mas dizer à nossa maneira e isso, só nós saberíamos fazer. E aqui, reside a novidade fundamental que nos propõe Denis.
Numa via de mão dupla, inerente à nossa situação histórica de ex-colônia nos trópicos, ao mesmo tempo que construíamos uma imagem à qual nos identificarmos, criávamos uma imagem que respondia mais a imagem filtrada pelo imaginário europeu, processo que só se reverterá com Machado de Assis.
1.1. Ferdinand Denis e sua história pessoal
Se nos debruçamos sobre os escritos de Ferdinand Denis, encontramos muita informação que ultrapassa o limite estreito, ainda que fundamental nos séculos XVIII e XIX, do catalogador científico, um dos traços que definiam os viajantes europeus ao Novo Mundo. Há, em sua história pessoal, de acordo com os dados que nos fornece Léon Bourdon em Lettres familières et fragment du journal intime de Ferdinand Denis à Bahia (1816 – 1819), muito de acaso, surpresa, reviravoltas e mesmo, algo que roça os romances um pouco à Rocambole, como veremos a seguir.
Em 1816, ano em que embarcará numa viagem que o conduzirá ao Brasil, Ferdinand Denis, que então conta 18 anos, não é absolutamente, nem pesquisador, nem cientista, nem escritor, como entendia o século XIX francês, todos estatutos rigidamente definidos por uma sociedade profundamente marcada pelo Iluminismo e por uma forte hierarquização social.
Filho mais novo de uma família burguesa, e que após os acontecimentos do século anterior perdera muitos de seus privilégios, Denis sofrerá inúmeras privações que o irmão mais velho não vivenciara. Em 1810, seu pai tenta colocá-lo na Ecole des Jeunes des Langues, que é mantida pelo Ministério das Relações Exteriores, ensaiando assim, o início de uma carreira ligada às funções diplomáticas. Mas, o jovem Denis é recusado por duas vezes, tendo sido preterido, ainda segundo Léon Bourdon, “par des candidats plus chaudement recommandés”.[4] Tendo estabelecido contatos através de seu pai com pessoas do meio diplomático, Ferdinand Denis sempre guardará, no entanto, ligações com este ambiente.
Vivendo inúmeros reveses financeiros, a família Denis vai se encontrar em 1816, logo após o fim do Império, em péssimas condições econômicas. M. Denis, o pai, “est mis à la retraite après d’honorables services” [5] , perdendo seu posto no Ministério, e seus três filhos ainda estão por serem colocados na vida. Alphonse, o mais velho, está neste momento tentando a sorte como autor de peças de vaudeville e melodramas, mas sem sucesso. Ferdinand tem uma irmã, Francisca, mais nova que ele e para quem é preciso que se constitua um dote. Ao que nos ensinam as longas cartas que formam a correspondência de Denis, posteriormente enviadas do Brasil à sua família, este será o motivo da viagem de nosso personagem aos trópicos.
C’est Ferdinand qui se sacrifie. Nous sommes en 1816. Il n’a que 18 ans. Mais, par cela même, il ne manque ni de courage, ni surtout d’illusions. Et il décide de s’expatrier. “Une dot à la gentille petite Cisca, un bien-être pour vous tous”, voilà, dit-il à ses parents, ce qu’il vaut aller conquérir de haute lutte au-delà des mers.” [6]
Na carta do dia 9 de junho de 1817, ele escreve a seu irmão, Alphonse,
Tu peux sentir, mon cher Alphonse, quel plaisir j’ai eu à recevoir ta lettre par le plaisir que tu éprouves en lisant les miennes. J’avais besoin de nouvelles nouvelles. C’est un si grand bien! C’est le seul que je possède dasn ce pays-ci. Je parirais, mon cher Alphonse, que notre bourse est absolument dans le même état. Pour me servir de l’expression de l’estimable M. Bonvoisin, je ne possède pas un rouge liard et, ce qu’il y a de pis, c’est que je ne vois pas comment je pourrai en avoir. Eh bien, depuis que je suis dans ce pays-ci, le courage, Dieu merci, ne m’a pas manquer (sic) et je saurai arracher de la terre du Brésil une dot à la gentille petite Cisca, un bien-être pour vous tous. J’espère que ce projet pourra se réaliser. Je crois que nous allons nous faire planteurs. [7]
A intenção inicial de Ferdinand é de embarcar para as Indias Orientais, onde contava com a ajuda de um amigo da família, Adolphe Dubois, que lhe garantiria uma posição. No entanto, e sem que haja uma explicação clara sobre o fato, só o que podemos saber é que entre a França e as Indias Orientais há uma escala no Rio de Janeiro e aí o roteiro da viagem se altera. O que parecia uma curta parada, transforma-se em estada de três anos. Vale lembrar que quando embarca para o Brasil, o jovem Ferdinand não vai só. Ele viajará em companhia de M. Plasson, um funcionário do Estado francês, posteriormente cônsul da França no Brasil, junto de quem ele se estabelecerá na Bahia, exercendo a função de secretário. Ao que tudo indica, portanto, a estada no Brasil não foi algo tão fortuito como poderia parecer à primeira vista. Como nota Léon Bourdon,
Le plus simple eût été sans doute de prendre un navire anglais à destination de l’Inde. Mais, sans que l’on s’explique parfaitement pourquoi, peut-être par raison d’économie, Ferdinand préféra se rendre d’abord au Brésil où il espérait trouver plus facilement qu'à Lisbonne, un bateau portugais allant à Goa. Or, un autre ami de la famille Denis, Henri Plasson, rejoignait précisement alors le poste d’agent consulaire de France à Bahia auquel il venait d’être nommé, et pouvait ainsi prendre sous sa protection le jeune Denis, guider ses premiers pas hors d’Europe, et, en cas échéant, lui venir en aide si son projet ne se réalisait pas. Il est hautement probable que cette circonstance inlfua beaucoup sur la décision des Denis. Elle devait décider de la vie entière de Ferdinand. [8]
Vemos, portanto, que a história de Ferdinand Denis nada apresenta de novo em relação a muitos de seus compatriotas que se arriscavam no Novo Mundo em busca de um Eldorado e de fazer fortuna. A história de Denis só não vem aumentar a lista de centenas de outras que constituem um arsenal das grandes e pequenas aventuras de viajantes e de tantas expedições de caráter científico encomendadas pelas nações européias ávidas de mapear um novo território a ser explorado, devido, provavelmente, a esta ausência de caráter de encomenda de Estado de sua viagem ao Brasil. Como hipótese, poderíamos deduzir que, pela premência em “arrancar” um dote à irmã, Ferdinand Denis embarcava numa viagem cujo roteiro, ideal às suas explorações, passava, antes da India, pelo Brasil. Em ambas as destinações havia um contato que poderia iniciá-lo na nova aventura em que se engajava: M. Dubois, em Calcutá e M. Plasson, em Salvador. Deixando literalmente o barco correr, Denis terá tempo suficiente para realizar uma “expedição pessoal de reconhecimento do território” em que se embrenhava. E será exatamente isso que ele fará, desembarcando no Rio de Janeiro.
A idéia de conhecer novos horizontes era bastante comum na época, como nos atestam todos os nomes de jovens franceses elencados por Denis em suas cartas, entre eles um dos Taunay, Thomas Marie Hyppolite Taunay, vindo ao Brasil por ocasião da Missão Artística de 1816 e da qual fazia parte, seu pai, Nicolas-Antoine Taunay, e com quem Denis escreverá posteriormente Le Brésil ou histoire, mœurs et coutumes des habitants de ce royaume, obra publicada em Paris, em 1822.
Segundo sua correspondência familiar, mesmo que o Brasil o tenha cativado, a cidade do Rio de Janeiro não lhe oferece atrativos suficientes para que ele aí fixasse residência. Não teria sido a presença de M. Plasson que teria ido buscar Denis, partindo para Salvador? Seria realmente o Rio de Janeiro tão pior do que Salvador para que ele deixasse a cidade? Ao que nos deixam entrever suas cartas e seu diário, sua situação, estabelecendo-se no Rio, teria sido ainda menos favorável pois aí não conhecia ninguém e a possibilidade ainda que remota de obter um posto junto ao governo francês, representado por M. Plasson, parece-nos ter sido a maior motivação para sua permanência em Salvador. A primeira carta de Ferdinand Denis, apresentada por M. Léon Bourdon, e escrita no Rio de Janeiro, data de 12 de março de 1817. Nela, Denis anuncia já sua partida prevista para Salvador, e comparando as duas cidades, escreve
Je ne pars pour ce pays (Bahia) que dans quelques jours. C’est quitter l’Enfer pour aller au Purgatoire. Je parle des villes. Il est difficile de trouver un plus beau pays que celui-ci. Juge des villes, mon cher papa: il n’y a que quatre libraires à Rio de Janeiro!
Cependant la Biliothèque Publique est assez bien fournie en bouquins. [9]
E ainda sobre o Jardim Botânico do Rio de Janeiro
Quelle végétation! Quel jardin des Plantes! C’est une vraie serre chaude en plein air. Il y a, à deux lieues de la ville, un Jardin Botanique. Il renferme presque toutes les plantes de l’Inde. Ce qu’il y a de plus remarquable, c’est une culture de thé magnifique et préférable à celui de la Chine. [10]
O que se pode notar de início nestas poucas linhas é uma mistura de sentimentos e de considerações que já prenunciam o efeito de maravilhamento e a profunda impressão que deixará neste jovem viajante europeu que é, então, Ferdinand Denis, a paisagem do Brasil, fato que percorrerá toda sua obra. Algumas de suas primeiras impressões que serão negativas sobre o país, dizem respeito ao caráter civilizatório e, portanto, às marcas da cultura européia transportada para o Brasil, que já tinham empreendido os portugueses e a administração colonial portuguesa. Fato evidente nesta mesma passagem citada acima em que o jovem francês se incomoda com a existência de apenas quatro livrarias na capital da colônia.
Na carta seguinte, datada de 12 de maio de 1817, já tendo chegado à Bahia, Denis já se arrepende do que dissera sobre as cidades de Rio e Salvador. Porém, a natureza de suas observações permance a mesma; se esta última o cativa por sua beleza natural, decepciona-o, pela completa falta de infra-estrutura cultural, imperdoável a seus olhos
J’ai enfin quitté Rio, et me voilà à Sansalvador. Je me rétracte: ce n’est pas, comme je le disais, sortir du purgatoire pour entrer en enfer. Si l’on compare ces deux villes, Bahia l’emporte de toutes façons. D’abord, des brises de mer rafraîchissent continuellement l’atmosphère et, quoique plus rapprochés de la ligne, nous souffrons moins de la chaleur. Les habitants se voient davantage, les promenades sont plus belles, les chemins pratiquables, etc. Tous ces avantages, on les possède dans la ville haute. La ville basse, la ville du commerce, est le plus vilain endroit de la terre. Du reste on construit si bien qu’il est probable que les premières maisons du haut feront la culbute sur les boutiques du bas qui crouleront dans le port. Je ne puis regarder sans effroi le théâtre qui a l’air de vouloir ouvrir le bal. Il y a donc un théâtre à Bahia? J’ai entendu donner ce nom à un bâtiment assez vaste, manquant de fenêtres, ouvert aux quatre vents. Aux vents seulement, car il est fermé pour le public, depuis la mort de la Reine. J’ignore parfaitement ce que peuvent faire les acteurs.
Je vois déjà, ma chère Maman, que tu trembles que je ne demeure dasn la ville du commerce. Rassure-toi. M. Plasson habite là-haut. Sa maison est située au bord de la mer, sur une éminence d’où nous voyons entrer et sortir tous les bâtiments. De l’autre côté, la vue est bornée par des parcs d’orangers, de citroniers, de manguiers, de cocotiers. Bref, il n’y a pas une plus belle vue au monde. [11]
Denis aí fixou residência durante quase dois anos, de abril/maio de 1817 a setembro de 1819, ao que indicam as cartas recolhidas em Lettres familières et fragment du journal intime de Ferdinand Denis à Bahia (1816 1819). Neste período, ocupou cargos oficiais mas jamais de alta importância, tendo uma remuneração bastante insuficiente para suas expectativas e para o objetivo que o motivara a sair da França. Paralelamente, chegou a realizar outras atividades para completar o orçamento, como registra em seu diário íntimo, no dia 19 de outubro de 1818, entre as quais, o envio para a França de exemplares de animais e aves empalhados, como colibris e também minerais a serem estudados por amigos ou apenas para serem vendidos entre pessoas conhecidas. [12]
Essas observações que podem parecer sem importância à primeira vista, indicam, no entanto, a precariedade da situação do jovem Denis no Brasil, que se virava como podia para poder realizar seu projeto inicial, melhorando a situação da família que ficara na França. O comércio de colibris parece ter resultado em atividade se não lucrativa, constante. Isso nos confirma a carta que lhe envia seu pai, em 1818 e na qual M. Le Vaillant[13], escrevendo de Paris, oferece um verdadeiro tratado de entomologia ao jovem Ferdinand, fornecendo-lhe “Instructions pour servir à M. Ferdinand Denis au Brésil à recueillir et conserver des oiseaux et des insectes.” [14]Vale lembrar que o hobby de Denis está profundamente ligado à natureza de sua educação e a este espírito classificatório e enciclopédico de que sempre sofrera as influências e que na época havia grande interesse por parte da sociedade por tudo o que fosse exótico e distante. M. Vaillant, em seu tratado, observa também ao jovem francês sobre os resultados lucrativos de seu passatempo. [15]
Infelizmente, o tempo passará e o projeto de Ferdinand Denis não se concretizará, não obtendo o jovem francês jamais um posto definitivo junto à representação diplomática de seu governo no Brasil. Em sua correspondência, mesclam-se, a partir de um certo momento, um sentimento de decepção tanto em relação ao Brasil quanto em relação aos franceses e a seu país, como nos atesta este trecho de sua correspondência à seu irmão, datada de 10 de março de 1818
En vérité, M. Plasson a bien fait tout ce qu’il fallait pour obtenir la résidence de Bahia. Je puis assurer au Gouvernement qu’il ne trouvera guères de consuls qui fassent la besogne d'agent consulaire. Mais ce même Gouvernement a raison. Les Français de ce pays-ci ne mérite pas tant de soins. On doit les laisser se déchirer entr’eux et les oublier parmi les sauvages brésiliens chez lesquels ils vont souvent dans l’intention de tromper, et par qui ils sont presque toujours volés. [16]
Ferdinand Denis tentará até o fim de sua estada no Brasil, todas as chances que se apresentaram para obter um posto e para ficar no país, sem jamais, no entanto, consegui-lo. Mas, a partir de maio de 1819, poderemos constatar através de sua correspondência familiar, que a intenção de reunir um material de estudo sobre o Brasil já nascera no espírito de Denis.
La lettre de M. Plasson, antérieure à celle-ci, a déjà dû vous prévenir du bon succès de son voyage et de l’intention qu’il a conçu de m’emmener avec lui sur les rives du Jiquitinhonha. J’espère que ce projet aura votre approbation. Il m’offre des espérances de fortune et, dans tous les cas, un vaste champs d’observations curieuses que je pourrai un jour mettre à profit. [17]
E ainda, mais adiante, na mesma carta aos pais
Ce qui plus tard serait un travail pénible n’est maintenant qu’un plaisir, et un plaisir d’autant plus aimable qu’il laisse après de lui des souvenirs dont l’existence doit s’embellir… Je dois être certain avant de quitter le Brésil, de n’avoir rien négliger pour fléchir la fortune. [18]
Enquanto investia na promessa de uma carreira diplomática, o jovem astuto que se revela Denis, e a quem nenhuma oportunidade parecia escapar, aproveitava para tomar notas, participar de viagens ao interior do país, conhecer os costumes da população, observar a flora e a fauna brasileiras, reparar na paisagem e suas variações. Tudo isso virá a constituir a massa de informações para seus futuros estudos sobre a cultura brasileira e resultará em suas publicações, nos anos que se seguem a seu retorno.
Parece claro que não se tente condicionar todo o nosso Romantismo, em particular, aquele primeiro, à única influência de Ferdinand Denis e de seus escritos sobre o Brasil. Havia toda uma atmosfera que permeava as relações, os escritos, os comportamentos, a sociedade, enfim, e que se relaciona, evidentemente, a escritos como os que nos legou Denis, a tradição dos relatos de viagens, e tudo o que a este tema se relaciona. Mas, este tipo de material é apenas um dos muitos elementos que entrarão na concepção e elaboração do nosso movimento Romântico. Não tendo jamais conseguido realizar no Brasil o seu projeto de vida, Ferdinand Denis parte para a França no ano de 1819, levando na bagagem os esboços de um outro projeto, que, este, sim, será levado a cabo e lhe valerá a notoriedade entre os intelectuais brasileiros. L’Histoire foi publicado em 1826, dez anos antes de ser publicada, também em Paris, a Revista Niterói, e já neste momento, Denis nos propunha abandonar os moldes europeus de criação literária, buscando inspiração em nosso próprio país. Em 1824, Denis havia publicado Scènes de la nature sous le tropiques, também em Paris, no qual faz uma descrição exaustiva de nossas riquezas naturais, em caráter científico. De retorno à França, o jovenzinho que descobrira o Brasil e o fará descobrir à França, ocupará o cargo de bibliotecário a partir de 1838 e conservador, a partir de 1841, da Biblioteca Sainte Geneviève. Aí será nomeado diretor, em 1865, aposentando-se em 1885.
[1] Uma outra versão deste texto, mais completa e com outras informações sobre o tema, será publicada pela revista Cahier Nº 8, publicação do CREPAL – Centre de recherches sur les pays lusophones de l’Université de Paris III – Sorbonne Nouvelle.
[2] Ferdinand Denis é autor de várias obras sobre o Brasil, em ordem cronológica: Le Brésil ou histoire, mœurs et coutumes des habitants de ce royaume, publicado em 1822; Scènes de la nature sous les tropiques et leur influence sur la poésie suivies de Camões et José Indio, de 1824 e Résumé de l’histoire littéraire du Portugal suivi du résumé de l’histoire littéraire du Brésil, de 1826, todas publicadas em Paris.
[3] Para este trabalho, utilizamos informações fornecidas por Lettres familières et fragment du journal intime de Ferdinand Denis à Bahia (1816 – 1819). Publicado em Portugal, apresenta uma introdução do Prof°. Bourdon, bem como cartas que Ferdinand Denis enviou à família durante sua estada no Brasil e um fragmento de seu diário pessoal, cujos escritos datam de 7 de outubro de 1818 a 19 de janeiro de 1819, ano de seu retorno à França.
[4] BOURDON, Léon. Lettres familières et fragments du journal intime de Ferdinand Denis à Bahia, Coimbra, Coimbra Editora Ltda., 1957, p. 8.
[5] Idem, ibidem, p. 14.
[6] Idem, ibidem, p. 14.
[7] Idem, ibidem, p. 57.
[8] Idem, ibidem, p. 15.
[9] Idem, ibidem, p. 53.
[10] Idem, ibidem, p. 54.
[11] Idem, ibidem, p. 55-56.
[12] Idem, ibidem, p. 69, 83-84, 136.
[13] M. Le Vaillant ao qual o pai de Ferdinand Denis faz alusão é M. François Le Vaillant, célebre naturalista na época e que trabalhou para o Museum d’Histoire Naturelle de Paris. Cf. Nouvelle biographie générale depuis les temps les plus reculés jusqu’à nos jours, avec les renseignements bibliographiques et l’indication des sources à consulter, Paris, Firmin Didot frères, fils et cie. Editeurs, 1860, tome XXXI, p. 19-20.
[14] Idem, ibidem, p. 101.
[15] Idem, ibidem, p. 102.
[16] Idem, ibidem, p. 91.
[17] Idem, ibidem, p. 120.
[18] Idem, ibidem, p. 120.